‡† Renato Russo †‡
Nasce o Aborto Elétrico
Renato era um bom garoto, ainda adolescente. Inteligente e intuitivo, não parecia que se tornaria o cara com o discurso afiado visto em Que País É Este? ou Conexão Amazônica, marcas registradas da sua primeira banda: o Aborto Elétrico. Sua mudança radical ocorreu mesmo em 1978 quando encontrou-se com Felipe Lemos. Fê era filho de professores universitários e tinha acabado de chegar de Londres, depois de uma estadia com os pais na Inglaterra. Debaixo do braço, alguns discos de rock, quase os mesmos que seriam colocados por Renato para tocar numa festa, em que os dois se encontraram. De cara, ficaram amigos.
"A gente não se desgrudava e o Renato ia na minha casa todos os dias", lembrou o baterista do Aborto Elétrico e do Capital Inicial, em entrevista publicada na Showbizz, em maio de 1997. Fê morava na Colina, o conjunto de prédios localizados no campus da Universidade de Brasília, que passou a ser o centro do "movimento" punk de Brasília. Lá, ambos fizeram amizade com outros caras, que também se identificaram com os três acordes que eram a matriz do som feito por Ramones, Clash, Sex Pistols e Comsat Angels. A Turma da Colina reunia Loro Jones e o irmão Geraldo Ribeiro (futuros integrantes da Bltx 64, depois Capital Inicial e Escola de Escândalo), André Müller e o irmão Bernardo (Metralhaz, depois Plebe Rude e Escola), Gutje Woorthman (fundador da Blitx 64 e depois da Plebe), Bi Ribeiro (Paralamas) e muitos outros. No começo, não passavam de uns 20 moleques. Dedicavam suas horas a ouvir discos, promover festas, passear pelas quebradas de Brasília...
Fê era amigo de André Pretorius, um sul-africano filho de diplomatas, que morava em Brasília e ostenta - de fato - o título de primeiro punk da cidade. Os dois, mais André Müller, planejavam montar uma banda, que acabou não acontecendo, porque André, dessa vez, mudou-se para a Inglaterra. Renato resolveu topar a parada e montar sua própria banda, convidando André e Fê. O nome do grupo surgiu numa tarde de papo furado, no térreo dos blocos de apartamentos da Colina.
"A gente tava sentado no chão, pensando qual seria o nome da nossa banda. Eu tava com um negócio de elétrico na cabeça e alguém falou comigo tijolo elétrico. Aí o André Pretórius falou: não, Aborto Elétrico", lembrou Fê à Showbizz, desmentindo a lenda de que o nome teria surgido em decorrência de uma invasão do campus da UnB pelo Exército, numa das famosas ações do governo durante a ditadura militar, quando uma estudante universitária teria perdido o filho em decorrência de um cacetet elétricos utilizado por um soldado mais afoito. A primeira apresentação ocorreu muito tempo depois, em 1980, quando resolveram fazer um show no Só Cana, o extinto bar localizado no Gilberto Salomão, no Lago Sul, bairro de classe média alta.
"Nós fomos, levamos umas coisas, o Fê estava com caxumba, febre de 40 graus e, quando terminamos o set de cinco músicas, o pessoal reagiu com: Êhhhh! De novo! Porque brasileiro gosta muita de zona. Então, dá-lhe zona. Eles não entenderam nada: todo mundo parado... Aí tocamos as cinco músicas de novo e, pelo que eu soube, a cidade inteira falou disso depois. Porque, primeiro, ninguém tinha ouvido falar de um grupo de música chegar e tocar de graça e ainda fazer aquele barulho. E o guitarrista loiro (Pretorius), sangrando a guitarra. O Aborto Elétrico era assim – Paaammmm!!! E não era rápido – era lento, tipo (Sex) Pistols. Aí o que aconteceu, a cidade começou a falar. Nos colégios de classe média – Objetivo, Elefante Branco, Marista... – o comentário era: Você viu? Aqueles caras são maconheiros, bla blá blá...", lembrou Renato, em entrevista à jornalista Sonia Maia, publicada na revista Bizz abril de 1989.
O grupo logo começou a realizar apresentações mais ou menos constantes, em qualquer lugar onde pudessem arrumar uma tomada elétrica. O Food’s, antiga lanchonete situada entre a 110 e 111 Sul, era um dos points do Aborto e das outras bandas que surgiram logo depois na esteira. Na época eram três grandes bandas: Metralhaz, Blitx 64 e Aborto. As três bandas, embriões das quatro grandes bandas brasilienses dos anos 80 – Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Escola de Escândalo – tocavam em festas, nas quadras, em bares como o Cafofo, na 409 Norte, na UnB, nos colégios...
Em 1981, Pretorius mudou-se do Brasil e voltou para a África do Sul com o pai diplomata – "servir ao Exército e matar os negros", disse Renato, que assumiu a guitarra. Flávio Lemos, irmão de Fê, passou para o baixo e a banda continuou. Os Lemos mudaram-se para o Lago Norte, abrindo um novo local para os ensaios da banda, que passou a dividir o espaço com uma nova banda: a Plebe Rude. "Passávamos os ensaios sacaneando o Renato, desligando a chave geral da casa", recorda Philippe Seabra. Nesse período, a turma cresceu, passando a fazer grandes agitos, pintando camisetas, confeccionando seus próprios badges, pichando os muros e pontos de ônibus da cidade. Renato era tão convicto do que fazia que tinha bolado em casa a capa e o encarte do LP do Aborto, que jamais foi lançado, claro. Dentro da capa do disco, um LP com um selo colado por cima. O sonho do disco próprio não era tão maluco assim, afinal em 1980 uma banda de Brasília já lançado um disco independente.
Era o Tellah, a primeira grande banda brasiliense, na época, de quem Renato era fã e enchia o saco para descolar um show conjunto. "Os caras eram músicos de verdade e tinham prestígio", disse em entrevista ao Correio Braziliense, em 1985. Haviam outros grupos, como o Liga Tripa e o Fusão, além da galera do Artimanha, que fazia jazz e música instrumental. É verdade que o compositor Renato Russo já tinha nascido e boa parte do repertório inicial do Capital e da Legião foram gerados ainda dentro do Aborto. É dessa época, por exemplo, músicas como Conexão Amazônica, Música Urbana, Tédio (com um T bem grande prá você), Veraneio Vascaína, Que país é este?, Fátima, entre outras pérolas que se tornaram clássicos do rock brasileiro.
A banda estava no auge em Brasília quando uma briga entre Fê e Renato acabou com tudo. "Eu briguei com o Fê por causa da música Química", disse Renato. "Nessa época estávamos supersofisticados, ouvindo sei lá o quê – Joy Division, essas coisas e eu cheguei com aquela música: Não saco nada de química... E eles: Pô, Renato, você está atrasado..." Fê bateu pesado: "Você está perdendo seu jeito de fazer música". Depois, reconheceu que errou em seu pré-julgamento: "Que bobagem minha! Hoje a música é um clássico".
Escrito por Renan Russo às 03h42 AM
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†‡Renato Russo‡†
Há oito anos, no dia 11 de outubro de 1996, o Brasil perdia Renato Russo, o maior compositor do rock brasileiro dos anos 80 e 90. Naquele dia, um dos mais irriquietos cantores e poetas do Brasil cerrava os olhos e entrava para a galeria de mitos do rock'n'roll, tornando-se referência constante para a juventude brasileira, ansiosa por sua poesia marcada pela ética e pelo amor. Renato, além de um excepcional letrista, foi um grande cantor e um artista complexo, em permanente estado de ebulição.
O jovem Renato Manfredini Júnior morreu, mas a gigantesca sombra do mito permanece. Para muitos, parece mesmo que ele jamais se foi. Pudera. Este ano, o culto à Legião Urbana e Renato continuou crescendo à medida que seu trabalho ganha mais fãs e suas composições, novos intérpretes. Sim, porque a Legião Urbana continua sendo citada em entrevistas e gravada por bandas e músicos. Senão, vejamos... Os Paralamas do Sucesso lançaram o seu Acústico ancorado em Que país é este?... Capital Inicial incluiu em seus shows a mesma canção, embora tenha diversas outras gravadas com a assinatura de Renato... Jerry Adriani lançou Forza Sempre um disco todo em cima do repertório da Legião, vertido para o italiano... Os Titãs gravaram Sete Cidades... O Barão Vermelho gravou Quando o sol bater na janela do teu quarto... O Ira! gravou Teorema... Zélia Duncan, Quase sem querer... Os Raimundos estão cantando Soldados em seus shows... E Cássia Eller também.
E, no final de outubro, saiu o aguardado Acústico da Legião, gravado em 1992 para a MTV brasileira e que, no momento do fechamento deste texto, já havia batido recorde, vendendo cerca de 700 mil cópias. Um feito raro para qualquer artista brasileiro. Certamente, um reconhecimento ao talento de Renato.
Poucas vezes, no rock brasileiro, um artista foi elevado à condição de semi-deus. Talvez apenas Raul Seixas, outro grande nome da música brasileira. Os discos de sua carreira solo, bem como toda a obra da Legião, continuam em catálogo, vendendo sempre bem nas lojas. Existem pelo menos 4.464 páginas que mencionam ou destacam Renato Russo e à sua obra na Internet. Quase todas construídas por seus fãs. A fama, como se vê, só aumentou com o seu desaparecimento, uma regra na construção dos mitos do rock.
É bem verdade que essa fama e o status de "monstro" do rock brasileiro fez justiça a Renato, que foi construindo a carreira como um bom artesão, moldando sua personalidade artística com integridade e, sobretudo, ética. Ele sabia o que queria desde o início, quando, ainda moleque, sonhava montar uma banda de rock. "Quem acredita, sempre alcança", repetia em entrevistas no início da carreira e que acabou virando tema da música XXX gravada com o 14 Bis em 1986. Renato acreditou sempre em si mesmo e na força do seu trabalho e, se existe hoje no país um rock com um discurso distante do banal e com forte conotação social e política, a juventude deve isso ao líder da Legião Urbana.
Escrito por Renan Russo às 03h08 AM
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